CHINA PASSA A DAR VALOR A ANTIGUIDADES

CHINA PASSA A DAR VALOR A ANTIGUIDADES

Por DAN LEVIN

PEQUIM – Cerca de quatro décadas após a Revolução Cultural, quando muitos dos tesouros centenários do país foram desfigurados ou destruídos graças à ordem de Mao de erradicar “os quatro velhos” -velhas ideias, velha cultura, velhos costumes e velhos hábitos-, a China inverteu sua atitude em relação às antiguidades.


Vasos de porcelana da dinastia Ming, móveis de madeira de lei do século 19 e até mesmo tinteiros de caligrafia do início do século 20 tornaram-se símbolos de status de uma classe média emergente, ansiosa para ostentar sua nova riqueza e seus novos conhecimentos culturais. O mercado de antiguidades virou tão disputado que deu lugar a uma nova categoria de programas de TV imperdíveis na China.

Nos últimos anos, uma dúzia de programas com títulos como “Mundo do Colecionador” ou “Avaliação de Tesouros” tem atraído colecionadores sérios e entusiastas amadores, oferecendo informações sobre tendências e técnicas de avaliação de objetos e incentivando uma mania de caça a tesouros.

Os programas atraem audiência fiel. O caminhoneiro e colecionador Zhou Yajun, da Província de Hebei, próxima a Pequim, disse que assiste a “Mundo do Colecionador” e a outros programas sobre antiguidades todas as semanas, testando sua habilidade de avaliação contra a dos jurados, na esperança de aprender a levar a melhor sobre os falsários que ludibriam os amadores das antiguidades no país.

Zhou, 38, disse que começou a colecionar antiguidades quatro anos atrás. “Depois de comprar minha primeira antiguidade, eu ia dormir abraçado a ela por uma semana, de tão empolgado”, disse, mostrando fotos de seus achados favoritos em seu celular durante uma manhã passada vasculhando a imensa feira de antiguidades de Panjiayuan, em Pequim.

Zhou já gastou o equivalente a US$ 12 mil para alimentar seu hobby -um montante alto para alguém que ganha menos de US$ 18 mil por ano. Mas passar tanto tempo sozinho na estrada cobra um preço emocional do caminhoneiro, e seu hábito de colecionar acabou se tornando uma maneira de preencher esse vazio.

“O problema é que, hoje em dia, todo o mundo quer colecionar, então não sobram tantos artigos genuínos”, acrescentou ele, olhando algumas moedas enferrujadas anunciadas como tendo cem anos de idade, antes de sacudir a cabeça e passar para a barraca seguinte.

Zhou criou sua maneira própria de avaliar a autenticidade dos objetos. “Compro uma coisa e a deixo em minha casa por dois dias”, explicou. “Se eu começo a gostar do objeto, é porque é legítimo. Se não gosto dele, é falsificado.”

Como observou Yan Xubao, 31, vendedor da empresa de móveis ACF China: “Sem um espírito capitalista livre, essas antiguidades ainda estariam enterradas em algum lugar da zona rural”.

Yan é presença constante em alguns dos mercados de antiguidades de Pequim, onde camponeses levam objetos de mobília antiga quebrados, ferramentas agrícolas e entalhes em pedra colecionados nas Províncias mais distantes da capital.

Os artigos são adquiridos por restauradores urbanos, como os que trabalham para a ACF, que revende os objetos restaurados, frequentemente a preços mais altos.
Roger Schwendeman, fundador da ACF China, é um americano que que trabalha no comércio chinês de antiguidades há oito anos. “Os compradores ocidentais costumam perguntar sobre a história de um objeto.

Já os chineses se interessam pelo valor do material”, disse ele, falando alto para ser ouvido em meio ao som de martelos e serras, enquanto três artesãos restauravam uma armário entalhado de pau-rosa.

Muitos dos mesmos estrangeiros que adquiriram tesouros de antiguidades chinesas nos anos 1980 e 1990 hoje procuram compradores chineses, cada vez mais ricos, na própria China, disse Schwendeman.

“Eles sabem que na China há dinheiro e paixão por antiguidades.”

Folha de São Paulo, segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

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